quarta-feira, 23 de setembro de 2026

O Sobreiro e os Líquenes, uma pequena floresta sobre a cortiça.🌳

Quem percorre a Serra de Sintra encontra frequentemente sobreiros com a cortiça coberta por manchas de líquenes. À primeira vista podem parecer apenas marcas na casca, mas esta superfície rugosa pode funcionar como um verdadeiro pequeno habitat.
O Sobreiro (Quercus suber) é uma das espécies mais emblemáticas da flora mediterrânica ocidental e uma verdadeira espécie-bandeira dos ecossistemas mediterrânicos portugueses. No Parque Natural de Sintra-Cascais existem habitats de Quercus suber, integrados numa paisagem marcada pelo encontro entre influências mediterrânicas e atlânticas.
A cortiça oferece aos líquenes uma superfície onde podem fixar-se. Não retiram alimento do sobreiro nem são, em condições normais, parasitas da árvore. O líquen obtém sobretudo um suporte físico, enquanto o sobreiro disponibiliza uma superfície relativamente estável onde estas comunidades podem desenvolver-se.
E aqui começa uma história ecológica interessante.
Os líquenes são associações entre fungos e organismos fotossintéticos, como algas verdes ou cianobactérias. Conseguem colonizar superfícies onde poucas outras formas de vida conseguem instalar-se. Na cortiça, juntamente com musgos, pequenos fungos e inúmeros organismos microscópicos, contribuem para criar uma comunidade que pode passar completamente despercebida.
A presença e diversidade dos líquenes podem também refletir características do ambiente envolvente, como humidade, exposição à luz, disponibilidade de água e qualidade do ar. Na Serra de Sintra, onde a influência atlântica e mediterrânica se encontram, estas condições contribuem para a existência de numerosos micro-habitats.
O próprio Sobreiro é uma espécie ecologicamente importante. As suas folhas, bolotas, ramos, tronco e cortiça oferecem diferentes recursos a numerosos organismos. É uma árvore que pode sustentar uma elevada diversidade de vida, muito para além daquilo que observamos à primeira vista.
Conservar os sobreirais e as árvores maduras da Serra de Sintra é, por isso, conservar também toda uma comunidade de organismos que vive sobre, dentro e à volta destas árvores, incluindo os discretos líquenes que ajudam a revelar a riqueza ecológica deste ecossistema mediterrânico.
Assim, quando observamos um sobreiro coberto de líquenes, não estamos simplesmente perante uma árvore com manchas na cortiça.
Estamos perante uma pequena comunidade ecológica instalada numa árvore que constitui uma das grandes espécies bandeira da paisagem mediterrânica portuguesa.


As azeitonas do Zambujeiro (ou Oliveira-brava).🌳

Entre a vegetação mediterrânica da zona do Murches, em Cascais, podemos encontrar uma árvore que, apesar de discreta, carrega uma enorme história, o Zambujeiro, a forma silvestre da oliveira, Olea europaea.
As pequenas azeitonas que vemos neste vídeo são muito diferentes das grandes azeitonas produzidas pelas variedades cultivadas. O zambujeiro desenvolve frutos geralmente mais pequenos, resultado de uma longa adaptação às condições naturais do Mediterrâneo. Em Portugal, a Flora-On associa esta forma silvestre sobretudo a matos xerofílicos, locais secos e rochosos, precisamente alguns dos ambientes onde a vegetação mediterrânica encontra condições para prosperar.
Mas esta pequena azeitona conta uma história muito mais antiga.
A Olea europaea faz parte da flora mediterrânica há milhares de anos e a sua relação com o ser humano é igualmente antiga. A oliveira foi sendo selecionada e domesticada, sobretudo no Mediterrâneo oriental, dando origem às inúmeras variedades cultivadas que conhecemos atualmente. A oliveira cultivada e o zambujeiro pertencem, contudo, ao mesmo complexo evolutivo.
É fascinante pensar que uma árvore como esta, aparentemente banal numa paisagem de Cascais, representa uma linhagem vegetal que atravessou alterações climáticas, transformações da paisagem e milhares de anos de presença humana.
Ecologicamente, o Zambujeiro tem também o seu papel. Como árvore ou arbusto perenifólio, contribui para a estrutura da vegetação mediterrânica e os seus frutos constituem um recurso alimentar para a fauna, participando nas relações entre plantas e animais e na dispersão das sementes.
Assim, estas pequenas azeitonas não são apenas frutos.
São parte de uma paisagem mediterrânica antiga, onde natureza e história humana se cruzam há milhares de anos.
No Zambujeiro, em Cascais, observar um zambujeiro é também olhar para um pequeno fragmento da história evolutiva e cultural do Mediterrâneo.


Phillyrea angustifolia. 🌳

Entre os arbustos que ajudam a definir a paisagem mediterrânica da Serra de Sintra encontra-se a Phillyrea angustifolia, conhecida por Lentisco-bastardo ou Aderno-de-folhas-estreitas. Pertencente à família Oleaceae, é uma espécie autóctone da região mediterrânica e encontra na Serra de Sintra condições particularmente favoráveis à sua presença.
É um arbusto perenifólio, de folhas estreitas e coriáceas, adaptado a períodos de seca e a solos pobres e pedregosos. Surge sobretudo em matos e matagais xerófilos, clareiras e zonas abertas, podendo também integrar comunidades de vegetação mediterrânica mais desenvolvida.
Na região de Sintra, a sua presença é particularmente interessante. Nas comunidades vegetais existentes entre Adraga e o Cabo da Roca, por exemplo, a Phillyrea angustifolia surge associada a espécies como o zimbro (Juniperus turbinata) e o carrasco (Quercus coccifera), formando parte de um mosaico de vegetação adaptado às condições secas, exposição ao vento e influência marítima.
A sua importância ecológica vai além da aparência discreta. Como arbusto perene, contribui para a estrutura dos matagais, oferecendo abrigo e recursos para diversos organismos. Os seus pequenos frutos, que amadurecem para tonalidades escuras, podem também participar nas relações de dispersão de sementes por animais.
É, por isso, uma daquelas plantas que facilmente passam despercebidas, mas que ajudam a contar a história ecológica da Serra de Sintra: uma flora mediterrânica resistente, adaptada à seca, ao vento, aos solos pobres e à dinâmica natural dos matagais.


terça-feira, 22 de setembro de 2026

Peto-real /Eurasian Green Woodpecker (Picus viridis) na zona Pedra Amarela Campo Base, 2026.

Na zona da Pedra Amarela Campo Base, na Serra de Sintra, um Peto-real (Picus viridis) pousado num pinheiro revela mais uma vez a riqueza natural desta paisagem.

Embora seja frequentemente associado às árvores, o Peto-real passa bastante tempo no solo, onde procura sobretudo formigas e outros pequenos invertebrados, utilizando o seu longo bico e uma língua especialmente adaptada para alcançar as presas.

O indivíduo fotografado, pousado num pinheiro, aproveita a árvore como local de observação e descanso, num ambiente onde áreas florestais, clareiras e zonas abertas proporcionam diferentes recursos ao longo do ano.

A presença desta espécie é também um interessante indicador da diversidade de habitats existente na Serra de Sintra, onde mesmo uma simples árvore pode funcionar como ponto de repouso e observação para a avifauna.


 

Borboleta Vanessa Atalanta no zona da Pedra Amarela Campo Base, 2026.🦋

Uma Vanessa-atalanta (Vanessa atalanta) pousada tranquilamente, aproveitando os raios de sol para regular a sua temperatura corporal.
Este comportamento de termorregulação é fundamental para as borboletas, permitindo-lhes atingir a temperatura necessária para iniciar a atividade.
Frequentemente observada em áreas abertas, jardins e espaços com vegetação espontânea, é uma espécie bem adaptada a ambientes humanizados.
Um momento aparentemente simples, mas que revela uma das estratégias essenciais para a sobrevivência destes pequenos insetos.


 

Águia-d'asa-redonda / Common Buzzard (Buteo buteo) na zona da Quinta Vale Cavalos, 2026.

Uma Águia-de-asa-redonda (Buteo buteo) pousada num poste, na Quinta Vale Cavalos, em Cascais.
Do alto deste ponto de observação, permanece atenta aos movimentos no solo, procurando uma oportunidade para caçar.
Esta postura é característica de uma ave de rapina que utiliza frequentemente pontos elevados para vigiar o território.
Uma observação simples, mas que revela a presença e o papel ecológico das aves de rapina na paisagem de Cascais.


 

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Borboleta Vanessa cardui na Costa da Guia, 2026.

A Vanessa-dos-cardos (Vanessa cardui) é uma das borboletas mais emblemáticas dos fenómenos migratórios entre a Europa e África.
Na Costa da Guia, junto à Boca do Inferno, pode encontrar condições favoráveis para alimentação e repouso, sobretudo durante os períodos de passagem migratória.
As áreas abertas, vegetação espontânea e plantas nectaríferas constituem recursos importantes para esta espécie.
A sua ecologia é particularmente interessante pela capacidade de realizar deslocações de longa distância, acompanhando as condições ambientais e a disponibilidade de recursos.
A presença desta pequena migradora demonstra que a importância ecológica da costa de Cascais ultrapassa largamente o ambiente marinho.
Entre o oceano, as arribas e a vegetação litoral, existe um mosaico de habitats que sustenta uma biodiversidade surpreendentemente diversificada.
 

Galheta / European Shag (Phalacrocorax aristotelis) na Costa de Cascais, 2026.

A galheta (Phalacrocorax aristotelis) é uma ave marinha intimamente ligada aos ambientes costeiros rochosos, encontrando na costa de Cascais condições particularmente favoráveis.
As arribas, plataformas rochosas e reentrâncias junto à Boca do Inferno e Costa da Guia proporcionam locais de repouso e abrigo, enquanto o mar envolvente constitui o seu principal território de alimentação.
É uma espécie essencialmente piscívora, adaptada à captura de pequenos peixes através do mergulho, podendo permanecer vários minutos a explorar as águas costeiras.
A presença da galheta evidencia a importância ecológica das arribas e do mosaico de habitats marinhos e terrestres desta faixa litoral.

 

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Passagem migratória do Maçarico-galego / Whimbrel (Numenius phaeopus) na costa de Cascais, 2026.

Nesta época do ano, o Maçarico-galego (Numenius phaeopus) atravessa a costa portuguesa na sua migração rumo às áreas de invernada mais meridionais.
A costa de Cascais constitui um importante espaço de passagem, repouso e alimentação para estas aves migradoras.
As zonas rochosas, intertidais e estuarinas próximas oferecem recursos alimentares essenciais para recuperar energia durante uma viagem de enorme exigência fisiológica.
A sua presença, por vezes discreta e passageira, revela a importância ecológica da faixa costeira de Cascais como parte de uma rede migratória muito mais ampla.
Observar um Maçarico-galego nesta costa é, assim, testemunhar um pequeno momento de um fenómeno ecológico à escala continental.

 

Periquito-rabijunco (Psittacula krameri) no Jardim da Costa da Guia, 2026.

Um Periquito-rabijunco tranquilo, pousado numa árvore no Jardim da Costa da Guia, em Cascais.
Embora seja uma espécie exótica invasora, a sua presença constitui também uma oportunidade para observar processos ecológicos associados à colonização de novos territórios.
A sua adaptação ao meio urbano, utilização de árvores para abrigo e reprodução e exploração de recursos alimentares demonstram uma elevada plasticidade ecológica.
Estudar estas populações é importante para compreender os seus impactos sobre espécies e ecossistemas autóctones.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Escrevedeira-de-garganta-preta / Cirl Bunting (Emberiza cirlus) na zona da Quinta Vale Cavalos, 2026.

A Escrevedeira-de-garganta-preta (Emberiza cirlus) é uma presença discreta, mas característica, dos pinhais e zonas abertas da Serra de Sintra.
Nesta época, a observação destas aves permite acompanhar os seus movimentos e perceber como utilizam diferentes habitats ao longo do ano.
Os pinhais, clareiras e áreas de matos fornecem alimento, abrigo e locais de repouso.
Observar, registar e conhecer estas espécies é uma forma simples de valorizar e proteger a biodiversidade da Serra de Sintra. 


 

Passagem migratória Felosa-musical / Willow Warbler (Phylloscopus trochilus) em Cascais, 2026

 

A Felosa-musical (Phylloscopus trochilus) é uma das pequenas aves que podemos encontrar na costa de Cascais durante a migração outonal.
Nesta altura do ano, indivíduos vindos do norte da Europa atravessam a nossa região a caminho das áreas de invernada em África.
Pequena e discreta, procura insetos entre arbustos, árvores e vegetação junto às arribas, aproveitando estes locais para repousar e alimentar-se.
A sua passagem recorda-nos que a costa é também um importante corredor migratório para muitas espécies.

Libélula de Nervuras Vermelhas (Sympetrum fonscolombii) na Costa de Cascais, 2026.

A Libélula de Nervuras Vermelhas (Sympetrum fonscolombii) continua ativa no final do verão, podendo ser observada junto às arribas e pequenas zonas húmidas da costa de Cascais.
É uma espécie com grande capacidade de dispersão, frequentemente encontrada longe dos locais onde se desenvolveu a fase larvar.
Nesta época, os adultos alimentam-se de pequenos insetos voadores e procuram locais soalheiros para regular a temperatura corporal.
Os dias ainda quentes e ensolarados favorecem a sua atividade, antes da chegada das condições mais frescas do outono.
Observar esta espécie junto ao litoral mostra como estes espaços podem ter importância para a biodiversidade

 

Adulto de Falcão-peregrino pousado nos calcários do Parque Natural de Sintra-Cascais, 2026.


Um Falcão-peregrino (Falco peregrinus) repousa tranquilamente sobre os calcários da costa de Cascais, aproveitando um dos seus habitats naturais mais característicos.
Com o fim da época de reprodução, inicia-se uma fase importante para estas aves, os juvenis ganham autonomia e os adultos recuperam energia.
As arribas costeiras funcionam como locais de descanso, vigilância e caça, oferecendo excelentes pontos de observação sobre o território.
É uma época de maior movimento e dispersão, especialmente entre os jovens.
Observar estes momentos é também uma oportunidade para conhecer e valorizar a biodiversidade selvagem que ainda persiste na nossa costa. 
 

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Peneireiro (Falco tinnunculus) a expulsar o Açor (Accipiter Gentilis) do seu território, 2026.

No Parque Natural de Sintra-Cascais, onde zonas florestais, áreas abertas e escarpas se encontram numa paisagem extremamente diversificada, estas interações lembram-nos que existe uma complexa rede de relações entre os diferentes predadores que partilham o território.